6 de dezembro, 2022

21 de outubro, 2022 | Editado SF

Filme Les mains Invisibles estreou no Doc Lisboa

Les mains Invisibles | Hugo Santos

“Nos anos 1970, uma casa em Paris acolhia dezenas de desertores portugueses que se esquivavam à guerra colonial. Só os arquivos da polícia política portuguesa guardavam provas das suas actividades anti-coloniais. De personagem em personagem, reunindo testemunhos e imagens amadoras, reconstruo esta memória clandestina.” Hugo Dos Santos

por José Augusto Martins

Há cerca de dois anos Hugo Santos contactou comigo depois de ver algumas fotografias minhas relacionadas com a participação de portugueses em manifestações contra a guerra colonial e o fascismo, por ocasião do 1º de maio 1974 em Paris. O desfile ocorreu já depois da revolução dos cravos do 25 de abril desse mesmo ano. Outras fotos, tiradas em associações portuguesas da região de Paris, também suscitaram a sua atenção e interesse..

Estava longe de perceber a relação com o projeto dele de fazer um filme centrado numa casa situada no nº 15 da rue du Moulinet em Paris que serviu de ponto de apoio a inúmeros exilados portugueses que recusaram a guerra colonial ou que eram perseguidos pela ditadura de Salazar e Marcelo Caetano, já que desconhecia completamente a sua existência.

As fotos, a casa e a guerra colonial

Hugo dos Santos reparou que havia vários dos seus frequentadores que apareciam em fotos do meu arquivo pessoal nessa manifestação ou noutras imagens no âmbito da atividade que desenvolvi desde 1968/69 na Associação Portuguesa de Gentilly no sul de Paris.

De 1961 a 1974, durante o período que durou a guerra colonial conduzida pela ditadura em Angola, Moçambique e Guiné Bissau, muitos jovens em idade militar optaram por sair de Portugal para diferentes países não só da Europa como também de outros continentes para evitar serem incorporados nas forças armadas portuguesas ou depois de incorporados desertando quando mobilizados para a guerra nas colónias. Estima-se que, por exemplo, só em França, mais de 150000 estariam nessa condição.

Thérèse, do Mali aos desertores portugueses

Estando de partida para o Mali acompanhando o marido numa missão de cooperação, uma jovem francesa, Thérèse, recém influenciada pelos acontecimentos de maio de 1968 e também pelo passado resistente da sua família, que habitava no nº 15 da rue du Moulinet no sudeste de Paris, cede a sua casa a Vasco Martins, jovem antifascista que conheceu  nos comités de ação, tornando-se um local de apoio a muitos dos que chegavam de Portugal,

Quando regressa passados uns meses encontra a casa cheia de jovens portugueses refratários ou desertores que recusam a guerra, já que Vasco animava uma rede de apoio  ajudando-os a instalarem-se em França ou encaminhando-os para outros países europeus.

Vários jovens cruzam-se então nesse local. Além de Vasco, que dava aulas na Renault de Billancourt, Raul Caixinhas, Tino Flores, músico da resistência anticolonial e os seus companheiros da banda os Camaradas, Angelo e Arnaldo, Fernando Cardoso, Rui Mota, Euripedes Costa, Luís Matias, Luís Saraiva e muitos outros, continuando, para além do apoio aos recém chegados, a  atividade contra a ditadura e a guerra colonial publicando jornais que distribuem nos locais frequentados por portugueses, participando em associações ligadas à emigração onde promovem atividades comunitárias, espetáculos musicais e de teatro.

O regresso depois do 25 de Abril

A revolta militar de 25 de abril 1974 é recebida cem Paris com um misto de confiança e suspeição já que os seus objectivos não são inicialmente muito claros, mas rapidamente a confiança instala-se e muitos refugiados políticos e jovens que rejeitaram a guerra colonial começam a regressar a Portugal.

O n.º 15 da rue du Moulinet fica de repente deserto. No meio da pressa em regressar ficam testemunhos da vida agitada daqueles anos: panfletos, cartazes e jornais e até armas descobertas pela filha de Thérèse num local reservado.

O 15 dá lugar a apartamentos modernos

Com o início da construção do centro comercial Galaxy na Place d’Italie em 1976, a renovação urbana chega progressivamente ao 13º bairro nos anos 90. Debaixo da pressão dos promotores imobiliários Thérèse decide finalmente vender o nº 15 da rue du Moulinet que dá lugar a um moderno prédio de apartamentos. É o fim de um local marcante para a imigração resistente portuguesa em Paris.

O filme que sublinha o papel de resistência e de solidariedade dos jovens refugiados portugueses é baseado em arquivos de diversa natureza, quer pessoais dos intervenientes diretos quer de fontes públicas como são os casos da imprensa escrita, televisão e outras, rec

orrendo, por outro lado, a entrevistas com alguns dos protagonistas como Vasco Martins, Tino Flores, Fernando Cardoso, Euripedes Costa, Rui Mota e com a dona da casa Thérèse e a sua filha.

O filme teve estreia no dia 12 de outubro, no Cinema S. Jorge, em Lisboa, no âmbito do DOC Lisboa.

Azeitão, 15 de Outubro 2022 J

José Augusto Martins

Editor

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