6 de dezembro, 2022

Desertores e refratários da guerra colonial estiveram na base do 25 de Abril

20 de novembro, 2022

Conversa no Porto sobre os exílios não teve fronteiras

O historiador e investigador da Universidade do Minho José Manuel Cordeiro foi categórico ao afirmar que nas condições que foram criadas para que o 25 de Abril tivesse ocorrido a partir de um movimento interno nas forças armadas, o défice de recursos humanos para assegurar o esforço de guerra, nomeadamente a nível das posições intermédias de comando, terá sido particularmente relevante na insatisfação que levou os militares no ativo a revoltarem-se e a procurarem soluções para uma guerra sem qualquer desfecho positivo à vista.

A deserção e a recusa da guerra pelos setores jovens da população, que estão referenciadas na ordem dos 200.000, terão criado um impasse de tal forma significativo nas tentativas de mobilização alargada para a frente de guerra nas ex-colónias que os militares de carreira foram forçados a realizar comissões sucessivas em África que não aparentavam ter fim.

Esta relação entre a luta contra a guerra colonial fora das forças armadas e o 25 de Abril não foi o único ponto crítico do debate realizado na sessão de apresentação do livro Exílios Sem Fronteiras que teve lugar na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto no passado dia 18 de novembro ao fim da tarde.

Paulo Esperança introduziu os protagonistas da primeira parte do encontro, que para além de José Manuel Cordeiro contou também com a presença de Isabel Lhano, pintora e ativista que também contribuiu para a ilustração e para a capa do livro, e incentivou ao debate e à conversa informal que é bem características nas tertúlias nortenhas.

As mulheres combateram a ditadura

Para a artista plástica que veio de Vila do Conde, acompanhado por amigos como o escritor, poeta e ensaísta Valter Hugo Mãe que assistiu à sessão, as mulheres estiveram na linha da frente no combate à ditadura. Isabel lHano recusa a ideia de um protagonismo masculino fundamental só porque as questões da guerra não implicavam tão diretamente as mulheres no país e no exílio. Muitas lutas e ações de resistência não só contaram com a participação das mulheres como, em vários casos, nomeadamente em fábricas têxteis e de conservas no Norte, elas foram determinantes para a concretização das ações de protesto.

Exilada já depois do 25 de Abril, em circunstâncias particularmente dolorosas, a pintora autora da ilustração da capa do Exílios Sem Fronteiras relatou ainda um episódio do “chumbo polÍtico” de que foi vítima, que ocorreu em Belas Artes, antes do 25 de Abril, aquando da avaliação final do 3º ano do curso que frequentava. A proposta de pintura que Isabel realizou para apreciação do júri fazia referência à FRELIMO e à luta anticolonial, o que foi considerado inadmissível pelos avaliadores e levou ao chumbo sem qualquer hesitação. Segundo a pintora presente na mesa, no dia a seguir ao mencionado “chumbo político”, panfletos invadiram Belas Artes com a denúncia da guerra colonial e da censura política no ensino superior.

Só falei da minha deserção às minhas netas

Joaquim Nunes, diretor da AEP61/74-Associação de Exilados Políticos Portugueses presente na sessão da Rodrigues Sampaio testemunhou, durante o debate, sobre o impacto da deserção na vida pessoal dos protagonistas de um ato que, na intimidade de cada um, marca para sempre quem o concretizou.

Para o dirigente associativo, ex-operário resistente antifascista e anticapitalista na linha de Vila Franca de Xira desde o início dos anos sessenta do século passado, a condição de desertor só é partilhada entre pares. Não se trata de uma atuação ou opção que se divulga aos quatro ventos. Sendo um ato político e de contestação ao regime fascista ele comporta dimensões pessoais que se situam no domínio da insegurança e até da marginalização social. Joaquim Nunes, quando falou da sua experiência de deserção, fê-lo pela primeira vez na família com as suas netas, ou seja, algumas dezenas de anos depois dos acontecimentos terem ocorrido.

As raras ações de rua contra a guerra

José Manuel Cordeiro recordou na sua intervenção de enquadramento histórico-político da apresentação do Exílios Sem Fronteiras que antes do início dos anos setenta do século passado não terão existido ações públicas, designadamente de rua e com mobilização de populações, contra a guerra colonial.

Terá havido intenções, eventualmente, mas o que é possível verificar é que as posições sobre a guerra colonial eram apenas declarativas e de denúncia. Artigos em jornais, distribuição panfletos, divulgação de informações escritas ou orais, muitas destas atividades existiam apesar de irregulares no tempo. O jornal clandestino Avante tinha uma secção especial sobre a Guerra Colonial. Mas a mobilização dos partidos de oposição ou até dos sindicatos ou associações, para ações diretas, não existia. A própria guerra colonial esteve praticamente ausente dos protestos dos estudantes nas chamadas “crises académicas”. A situação viria a inverter-se, progressivamente até ao 25 de Abril, com o surgimento dos grupos maoístas e outros movimentos de extrema-esquerda. Nesta nova dinâmica de denúncia da guerra colonial começaram a surgir ligações entre as ações de reivindicação económica e social à questão da guerra, que até então afligia principal e exclusivamente os setores mais jovens da população.

Uma encadernação de prestígio

Um participante na sessão deu a conhecer a encadernação de prestígio que realizou de um exemplar do livro Exílios.3 dando nota da importância que atribui à publicação destas histórias e reflexões sobre o exílio político e a deserção. Esta valorização do esforço que todos realizam para que publicações deste tipo vejam a luz do dia surgiu como um incentivo para as iniciativas futuras da estratégia editorial da AEP61/74 que prevê a curto prazo a publicação do quarto volume da Coleção e o segundo da série temática; o Exílios no Feminino.

José Luis Gonçalves brindou os participantes na sessão com três magníficas canções que reforçaram um sentimento de solidariedade entre os presentes e que no fundo colocaram um carimbo de grande cordialidade que marcou a sessão realizada num espaço de elevado simbolismo do pensamento crítico independente da cidade, a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

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